CUBISMO # 3 ... e INCURSÕES FIGURATIVAS NO REALISMO ESPONTÂNEO

O CNAP tem a honra de inaugurar a nova temporada, após férias, com a Exposição de Victor Costa.
A presente mostra confirma-nos que o Autor, com uma atividade de 30 anos, possui um domínio completo, quer no plano estético quer no técnico o seu “Cubismo” é uma opção coerente, persistente e original, porquanto a sua relação com os “cubismos” de Vieira da Silva ou de Cargaleiro, por exemplo, ou até com Picasso, Braque e Joan Gris, foi ultrapassada com a grande sensibilidade deste Pintor coimbrão. A conceção da sua pintura, denota essa coerência no plano formal e estético, mas revela ainda que, a sua pesquisa é pessoal, resultando as telas de brilho e qualidade superiores, ora apresentadas na presente mostra. Os seus quadros denominados Cubismo#3 são o corolário de uma atividade extraordinária de um grande criador.
Há meses, numa Exposição coletiva, já tínhamos visto algumas telas de Victor Costa, aqui no CNAP. Agora esta Exposição constitui a demonstração inequívoca do seu virtuosismo técnico, dada a presença de obras de um outro grupo, denominado Incursões Figurativas no Realismo Espontâneo. Surge-nos um figurativo que confirma a elevada qualidade pictórica do Autor.
A persistente e normal atividade do CNAP e da sua Galeria, conferem no panorama das artes plásticas e da divulgação de grandes valores artísticos, uma atividade que importa realçar na presente conjuntura. A Exposição de Victor Costa confirma-nos a indesmentível qualidade que o CNAP atribui às suas propostas de uma efetiva divulgação e valorização dos seus artistas.

Prof. F. Lourenço Baptista

Lisboa, 2014


 

Entrevista de Cristina Mendonça

a Victor Costa


1 - Quando começou a sentir necessidade de pintar? Explique.

Necessidade de pintar, conscientemente, quando na escola primária diziam que eu tinha jeito para o desenho, e que eu tinha que ir para Belas Artes, e que eu tinha que pintar qualquer coisa para um concurso... e aí conscientemente senti necessidade de corresponder... felizmente com um retrato de Gil Vicente, ganhei um prémio, recebi um estojo de aguarelas!..

2 - Há momentos em que se sente mais inspirado? Quando é que isso acontece?


Sem dúvida! O correr da vida, o percurso emocional, o tempo ou a falta dele, o coração com o sem hipertensão, o estado da alma e os estados de alma.

Sou mais susceptível e motivado a reagir criativamente, isolando-me. Quando tenho necessidade de corresponder a desafios, preparar uma exposição temática por exemplo, sinto absoluta necessidade de me isolar, de me fechar no atelier e não ver ninguém, não ser interrompido e não interromper nada, nem coisa nenhuma. Aí, solta-se-me a alma e os estados de alma sobrepõem-se à realidade, ao momento, a tudo, e o processo criativo flúi. Nesta dimensão, quase vagueio entre o momento e o limbo, entre eu próprio e a minha outra dimensão, sinto-me leve, agarro-me inconscientemente ao chão para não voar, a noção do tempo perde-se, e as outras necessidades esfumam-se em absoluto. Dou por mim às vezes, quase sempre nestas circunstâncias, passadas  oito, doze, catorze horas, em que me não lembrei de tomar o pequeno almoço, nem o almoço, e quantas vezes nem o jantar sequer... bebi água, e fui mudando a música de fundo que tenho sempre como companhia inseparável... jazz, blues e clássica, e a pintura acontece...

3 - Quais os temas que mais gosta de transpor para as telas? Porquê?


Gosto em especial da paisagem urbana, todo o tipo de paisagem urbana. Gosto de forma arrebatadora de Coimbra, de pintar a meu modo o Mondego e os seus reflexos. Gosto de pintar temas de xadrez por paixão! E pontualmente de fazer retratos, e neste particular de lhes dar um cunho e dimensão biográfica. Pintar o feminino fascina-me pela parca margem em o sublime e o inócuo, entre o fascinante e o exótico, entre o inigualável e o tangível, entre o desejo e o medo, entre o presente e o futuro.

4 - Os olhos de um pintor vêem as coisas de igual forma que os olhos das outras pessoas? Justifique.

Sem falso pretensiosismo, penso que não. Como pessoa, sem dúvida que sim. Como pintor, como artista, como outsider,  faço possivelmente a ligação entre a realidade e o sonho e isso pode irritar de raiva e inveja e fracturar a forma de olhar... Porque a maioria das minhas peças se envolve de tonalidades azuladas, eu não vejo a realidade azulada vejo-a mesclada e confusa como todos a vêem, mas pinto-a como a sinto, simples, calma, e... tendencialmente azul.

5 - Qual é a emoção cada vez que termina uma obra? Sente-se realizado?

Tenho frequentemente dúvidas persistentes sobre o momento e exactidão para colocar um ponto final numa peça. Se as não tivesse que expor, certamente que evoluiriam para outros fins, para outras formas, para reflexões mais profundas sobre a sobreposição dos estados de alma a que eventualmente seriam sujeitas e evoluiriam. Apetece-me tantas vezes fazer como o Júlio Pomar e virar as telas contra a parede, e deixá-las a marinar no tempo e no esquecimento até ser visível a necessidade de dá-las por acabadas. Mas a falta de tempo, e a necessidade, obrigam-me a antecipar prematuramente talvez o seu terminus... às vezes com mágoa.

6 -  Já alguma vez doou obras suas a instituições de caridade? Quando? Quais?

A instituições de caridade?... já! Se Corporações de Bombeiros na sua essência me merecem o respeito à dádiva pura, nua e crua, de uma peça que criei e amo, como um pai um filho, e que a oferece por amor, respeito e solidariedade a uma nobre causa, se isso é caridade, sim! Doei várias obras a organizações, sociedades e instituições de estudo, trabalho, ou apoio a vitimas ou a causas, como Sociedades de Cardiologia, Senologia, Doença de Parkinson, Oncologia Pediátrica, enfim muitas outras também de carácter social ou associativo.

7 - A profissão de pintor é suficiente para se viver ou tem que haver sempre outra complementar? Justifique.

Deveria ser suficiente, é suficiente e nunca foi ou será suficiente. O artista alimenta-se da sua arte em estado de espírito. O tempo corre, escorre, e às vezes para alguns, merecedores também da fama que lhes foi negada  pelo acaso, ficam-se no ocaso, no palco da vida, porque não tropeçaram no momento certo, no sitio certo, contra a pessoa certa, e... nunca conheceremos a sua obra, e morrem quantas vezes também de fome... Outros há, que por um acaso, lhes caiu na sopa o avião que transbordou do prato a fama, o reconhecimento, o valor, a publicidade, a visibilidade e quantas vezes a ousadia da pré-loucura na realização artística de si mesmos. Fascinante pelo imprevisto! E ainda há os que juntam a loucura necessária para parecer possível sobreviver da arte, sem tropeçar no acaso do sonho... e subsistem com uma qualquer actividade rentável.

8 - Quais os maiores obstáculos que tem encontrado?

Na verdade é frequente confrontarmo-nos com os poderes instalados, com uma inércia redutora própria das quintas com caseiro antigo e pessoal de confiança. É a meu ver, mais que o espírito aberto e a sede cultural, a mingua de espaços abertos e principalmente, com abertura necessária para abrir caminhos a quem se sujeita à exposição de si mesmo. Portugal, desde a capital, as capitais, e a província não reconhece os seus artistas, não os recebe, não os motiva nem promove, mas lamenta-se da falta de meios para o fazer. Não é a dialéctica, é ignorância.

9 - Como vê a cultura em Portugal? Está ao alcance de todos ou, pelo contrário, só de uma pequena percentagem de elite?

A cultura em Portugal parece ao alcance de todos, quando insistimos em traduzir cultura à letra, como cultura. Sim, se cultura é tradição e costumes e língua e gastronomia e folclore e história e tudo... então sim. Se cultura é conhecimento intrínseco de saberes e capacidades e interpretações emocionais e racionais destas, como complementaridade da função e capacidades critica e cognitiva, então, apenas uma pequeníssima percentagem tem acesso a esta, e esta diminui ainda, quando tivermos vontade de aceder de perto, de ouvir, de ver, de tactear, de sentir, de cheirar, de adquirir, e aí, sentimos uma distância infinita em relação aos grandes centros e eventos culturais, nacionais e internacionais. Auto isolamo-nos ou auto-excluimo-nos.

10 - Quanto a si o que mais podia ser feito nessa área?

Estou convicto que deveremos começar na escola básica, sensibilizar culturalmente os jovens alunos, na fase em que, todo o conhecimento que adquirem é dogmático e marca profundamente os seus horizontes de vida. Aqui se aprende e se apreende a vida sócio-culturalmente. Que aí se invista! Dado o passo de gigante, será a sociedade a exigir uma vivência cultural rica e enriquecedora, então seremos livres, saudáveis e vivos!

11 - Quais os pintores que mais admira e o influenciaram na sua arte? Porquê?


Quem mais me influenciou foi Vieira da Silva, absolutamente! O fascínio pela dinâmica imprimida na complexidade de traço violento e firme, a riqueza do ajustamento e envolvimento cromático, a sensibilidade latente em cada tela, arrastam-me e perseguem-me e influenciam-me. Eu sinto, isto é, eu quero e procuro que o meu percurso artístico e a sua evolução possa ser marcado de algum modo pela Helena Vieira da Silva. Há contudo outros que me motivam e me fascinam e me influenciam, como os portugueses Manuel Cargaleiro, um pouco à semelhança de Vieira da Silva pela intensidade e dinâmica da quadricula que me fascina e Mário Silva pelo esoterismo e pela loucura e pela proximidade, e os estrangeiros Klint, pela dimensão do traço e pelo culto figura e do feminino, Nicole Elkon fascina-me e influencia-me pela visão urbana, pelo cromatismo e pelo fascínio do azul, em Aldo Villa a técnica e facilidade de traduzir os estados de espírito femininos e o que estes provocam nos masculinos!...

12 - Acha que as pessoas o vêem de maneira diferente por ser artista? Explique.

No meu caso eu acho que não, as pessoas ligam os artista à excentricidade, a posturas de limite, de quase irresponsabilidade. Há contudo aqueles que se apresentam e que se movem sem a necessidade de tais subterfúgios. Pode ser-se marginal e excêntrico na obra, na tela, no papel, e ser-se natural na postura social e humana. O artista não se avalia pelo que veste, pelo show-off ou pelo imprevisto sistemático, mas pela diferença no trabalho! O meu bigode e os meus chapéus, eu acho que devem ficar na sombra face à minha obra, se assim for, terei conseguido uma diferenciação positiva!

13 - O que mais gosta de fazer para além de se dedicar à pintura?

Sou um apaixonado pelo xadrez. A complexidade das ideias lançadas no tabuleiro num só lance, fascinam-me quase tanto como a imensidão de interpretações provocadas por um traço perdido na imensidão cromática de uma pequena obra, é absolutamente impar o fascínio da provocação e do contraditório gerado pelo instante quer na tela como no tabuleiro.

Trabalho ainda numa autarquia como presidente da Junta de Freguesia de Almalaguês, eu acho que a população que me ajudou a crescer, que eu nunca esqueço, me merecia o esforço e dedicação à causa pública. Estou a fazê-lo, com muito sacrifício, mas espero que no final de mandato, ao ser substituído pelo próximo, sinta que valeu a pena!

14 - Que mensagem gostaria de deixar a quem pretende iniciar uma carreira ligada às artes?

Gostaria em primeiro lugar de desejar muito melhores condições de trabalho, muita coragem, arrojo suficiente para traçar um caminho e percorre-lo independentemente do sucesso ou insucesso, importante em primeiro lugar é a realização pessoal, depois vem, virá um dia o momento certo do sitio certo e hora certa!

Queria muito que o futuro passasse mais por Portugal e menos pelo estrangeiro... um dia, ainda havemos de nos voltar de novo para o mar e amar por dentro o futuro com um sorriso!

Na imprensa americana...


​cortesia da «AMERICAN ART COLLECTOR», MAIO 2015

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Bodas de Prata de pintura


O Victor Costa “sonhou” um dia que queria ser artista de artes plásticas. O mundo rural em que nascera, a natureza que o deslumbrava e o artesanato de tecelagem que lhe corria no sangue, deram-lhe os primeiros lampejos sonhadores e insuflaram-lhe os “sintomas” de acreditar na “doença” da pintura. A realidade em que vivia era o perfume tonificador que exigia conhecer o segredo do laboratório natural onde se forjavam os “odores” e as “volúptias” que o empurravam para abraçar, com determinação, as “fraquezas positivas” do ego que lhe roía as entranhas.


E, já lá vão 25 anos!!! O Victor Costa, como todos os sonhadores, perdia-se e encontrava-se, também, na poesia. Arte gratificante que associada à arte da paleta, combinava em pleno para escalar a montanha e decifrar a verdade dos “sonhos”.


Este pretexto do contexto “aprisionado” foi insistentemente provocado pela vivência rural, pela história da sua terra e pelo movimento e envolvimento social e cultural que o rodeava, valores que combinavam e atendiam, com alegria, as fímbrias mais íntimas da sua alma. Valores bastantes e grandiosos para tomar a decisão do seu futuro de artista plástico com especial apetência para a pintura. Esta, alimentava, desde sempre, o seu mundo de fantasia e de ambição criativa, porque enraizava a dimensão e diversidade da natureza, presentes na fulgurância dos ciclos sazonais, na plasticidade da matéria, na riqueza patrimonial e na generosidade e honradez das gentes da ruralidade.


Face ao constante diálogo homem/natureza conjugavam-se as vertentes indispensáveis que validavam o seu “apetite cultural” e estimulavam a força invisível e cada vez mais incontornável, que o dominava e o ia amarrando sem possibilidade de fuga. A luz do sol, a luminosidade poética da lua, o suave ou forte movimento do vento nas árvores, a alternância da tonalidade consoante a estação do ano, sustentavam os factores irresistíveis que, definitivamente, acabaram com a hesitação e dobraram a fronteira do sonho para a realidade desejada. Vencera a coragem da inata ambição, em 1979.


O percurso de Victor Costa como artista plástico firmou-se combinando o que parecia intransponível, ao apostar na vida artística de pintor. Ultrapassou a dúvida que coloca impossíveis em vez de limites. A caricatura e a aguarela seduziam-no e proporcionaram-lhe abraçar um trajecto complexo, pois teve de conciliar o impressionismo com o cubismo e… O seu percurso, como o analisa, teve quatro fases: afirmativa, azul, enigmática e dinâmica.


Pintor consagrado, optou pelo óleo, técnica que melhor se coaduna, no nosso entendimento, à dimensão da sua obra. Esta recamada de características identificadoras de um artista a quem se dispensa a assinatura para reconhecer o autor, possui o pendor da monumentalidade, o rigor da qualidade e a grandeza de um discurso pictórico que semeia riqueza e aprisiona mensagens. Assemelha-se ao conceito latino “verba volant, scripta manent” (as palavras voam, mas o escrito permanece), ou seja, a força da sua arte revela uma estética, imprime uma linguagem comunicativa e explora um ritmo tão apelativo e marcante na cor, que abre horizontes e desperta curiosidades, confirmando que a obra de arte é o que distingue e define, no essencial, o ser humano das outras criaturas.


Victor Costa, aureolado com invejável currículo, tem participado em exposições individuais e colectivas, está representado em colecções particulares na Áustria, Bélgica, Brasil, China, Espanha, Estados Unidos, França, Grécia, Holanda, Itália, Portugal, Inglaterra e Suécia. A par dos atributos mencionados na sua pessoa e na sua arte, Victor Costa partilha de uma pedagogia de proximidade, alicerçada no ensino, na solidariedade e no respeito pelo cidadão, independentemente da idade, do nível cultural e económico e da nacionalidade a que pertence. Victor Costa ao festejar as Bodas de Prata de pintura testemunha o ditado tibetano: “se encontrares no teu caminho um homem que sabe, não digas nada, não fiques em silêncio, abre-lhe a porta”. Victor Costa é o pintor que sabe. O homem e a arte franquearam a porta… há 25 anos.


Coimbra, 3 de Outubro de 2009


Mário Nunes

Vereador da Cultura

Câmara Municipal de Coimbra

Na imprensa americana...
​cortesia da «INTERNATIONAL ARTIST MAGAZINE», ABRIL 2015